Deputado Marco Feliciano diz que recebe amigos gays dentro de casa

Deputado evangélico diz que daria amor a parentes homossexuais e acusa líderes do movimento gay de faturar em cima de verbas públicas.

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Desde que assumiu a presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, o deputado Marco Antônio Feliciano (PSC-SP) atiçou ódios país afora ao protagonizar uma guerra verbal e legislativa com movimentos gays e de negros. Até então anônimo no primeiro mandato no Parlamento, ele foi associado a toda sorte de retrocessos e demonizado nas redes sociais, mas resistiu a pressões de colegas e da sociedade para deixar o turbulento comando da comissão.

Em entrevista exclusiva, Feliciano se assume como pecador e conservador, e deixa claro que não mudará nem o estilo nem a “convicção religiosa”. Nega ter dito que os negros são amaldiçoados, reitera ser afrodescendente ao contestar a pecha de racista, diz que recebe amigos gays em casa e acusa líderes do movimento gay de embolsarem dinheiro público repassado a ONGs.

Conferencista e empresário, o deputado frisa que daria amor se tivesse familiares homossexuais. “Critico o ato, não as pessoas. O meu problema são os ativistas, que fizeram um inferno na minha vida”. Confira:

Nesse ano tumultuado, o que mudou na sua vida depois de assumir a comissão de Direitos Humanos (CDH)?
Perdi a privacidade e a tranquilidade, minha família sofreu comigo, as igrejas que presido foram atacadas, os eventos que fiz foram pilhados por ativistas. Essa foi a parte ruim. A parte boa é que eu sobrevivi, me tornei exemplo de resistência na Câmara e isso me deu projeção. Meu eleitorado segmentado, só do movimento evangélico, agora cresceu. Católicos me param na rua, espíritas, ateus, que são conservadores.

Eles te abordam para elogiar ou criticar? O senhor se acha conservador?
Para elogiar, porque o nosso país é conservador. Quase 90% da população diz professar a fé cristã. Sou extremamente conservador no sentido da família e da vida. Eu não entendo o progressismo quando falam que aborto é progresso. A família tradicional, base da sociedade, me respeita. É o chefe de família, o pai com seus filhos, a mãe, pessoas de bem que não são levadas só pelo que leem ou ouvem, que entendem que eu fui usado como bode expiatório.

O mundo está secularizado, muitas pessoas não seguem dogmas religiosos, a própria Justiça já reconhece a união homoafetiva. O senhor acha que vai reverter esse cenário?

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Aqui eu não luto por vitórias, e sim pelo que acredito. O Supremo Tribunal Federal arguiu, em uma ação, que a união estável é reconhecida pela Justiça. Eu já havia dito em 2010 que depois da união estável viria a união civil. E me chamaram de teórico da conspiração quando eu disse que a união civil ia virar casamento religioso. Resultado: o STF arguiu a união estável e o Conselho Nacional de Justiça, que não tem essa competência, baixou resolução obrigando os cartórios do país a fazer.

E a sua comissão suspendeu essa resolução recentemente.
Exatamente. Supremo e o CNJ legislam onde não podem. O que fazer com a Constituição, sustentáculo da democracia? O que eu faço com o artigo 226, parágrafo 13, que diz que a união estável, que pode ser transformada em casamento, é a união de um homem e uma mulher? Por que os deputados que apoiam o movimento gay não apresentam uma proposta de emenda constitucional? Cadê a coragem deles?

Mas a Constituição também diz que todos são iguais perante a lei.
Em momento algum falamos que não são. Agora, sobre sexo e gênero, a Constituição é bem clara. O caminho para que a democracia não seja ofendida por uma ditadura de minorias é apresentar emenda constitucional, e vamos para o voto!

Quando os protestos intensos pediam sua saída da comissão, em algum momento cogitou a renunciar?
Quando pensei que era só enfrentamento, eu não tive medo porque o contraditório é saudável para a democracia. Mas quando as pessoas partiram para a agressão física e para o histerismo… Sofri agressões físicas inúmeras vezes, na Câmara e fora da Câmara. Tapas, ofensas, assédio moral. Fui ameaçado de morte, minha cada foi pilhada por pessoas na porta.

Quem te ameaçou de morte?
Quem sabe? Minhas igrejas foram pichadas. Esse pessoal do outro lado é muito radical e nunca me convidou para um debate em nível intelectual. Vamos para o campo das ideias? Ninguém quis. Depois que passei pelos programas de TV, a população acalmou e entendeu que tinha alguma coisa estranha. Não tenho histórico de ódio, violência ou perseguição.

Mas ainda assim o senhor acendeu uma imensa polêmica. Segmentos o veem como um deputado que trará o fundamentalismo religioso de novo, misturando Estado laico com dogmas.
Aí vem a ignorância. Por que a pessoa, em vez de se deixar levar por fofocas, não vai estudar? Por exemplo, a rainha dos baixinhos, a Xuxa, falou nas redes sociais que eu era um monstro. Eu ia processá-la, mas vi que ela estava repetindo um Facebook falso, que dizia que criança negra não tinha alma. E se eu tivesse também agido no impulso? Falta no país pessoas que pensem, e não que fiquem por aí como papagaio de pirata.

Falando nisso, uma das polêmicas foi a suposta declaração de que os negros, segundo a Bíblia, seriam amaldiçoados. O que exatamente o senhor disse?
Nunca disse isso sobre negros, nunca falei de cor de pele. Eu te mostro a foto de meu pai, um negro de dois metros de altura; e de minha mãe, uma afrodescendente. Eu sou afrodescendente. Falei numa época de um ensinamento bíblico sobre o continente africano, que também têm brancos. Falei sobre terra, não sobre pessoas ou etnias. Pura maldade. Como queriam colar em mim a pecha de homofóbico e não pegava porque eu não tenho histórico – nunca odiei gay, nunca matei gay, nunca persegui gay -, tentaram colar a pecha de racismo.

E a sua cruzada contra os gays…
(Ele interrompe) Não movo cruzada nenhuma, é engano de vocês. A CDH sempre foi esvaziada, votou só sete projetos em 2012. Quando entrei na comissão, todos os projetos de gays estavam lá trazidos pelo presidente anterior (Domingos Dutra). O projeto da pensão ao parceiro homossexual não passava na Seguridade Social, da noite para o dia sumiu de lá e foi parar na CDH, reduto deles. Aí eu fui para o debate: por que o filho emancipado que cuidou do pai morto não tem direito à pensão? Eu poderia ter engavetado o projeto, mas não sou covarde e não tenho medo. Foram aprovados porque PT, PSOL, PCdoB e PPS poderiam empatar a votação, mas abandonaram a comissão. Defendem o direito de minorias, mas não apareceram.

O senhor tem familiares gays? Se tivesse, qual seria seu comportamento?
Que eu saiba, não tenho (familiares gays). Teria todo o amor do mundo por eles. É família! Não concordo com o ato, mas não sou contra as pessoas. Sou pastor, prego o perdão dos pecados e amor ao próximo. Tenho amigos gays que frequentam a minha casa, que dão risada de tudo isso. A imprensa foi à minha cidade e os entrevistou, mas nunca saiu nada porque existe todo um aparato de governo, uma maldição por trás disso tudo aí que só Deus sabe o que é.

Maldição contra o senhor?
Não. Há um grupo que trabalha para desfocar o assunto. As pessoas têm que estudar o porquê de tanto apelo ao movimento gay. Nos últimos 10 anos, as ONGs deles receberam meio bilhão da Secretaria de Direitos Humanos. Tenho dossiês e vou colocar para frente no ano que vem. Dossiês de ONGs que receberam dinheiro e fecharam no dia seguinte. Tem acusações nos tribunais contra chefes do movimento gay que sumiram com o dinheiro no enriquecimento ilícito. A comunidade gay não pode ser enganada; são pessoas de bem que merecem meu respeito, mas precisam entender que tem gente se beneficiando com muita grana. Eu converso com gays que não são ativistas. O meu problema é com o ativismo, porque os ativistas vieram brigar comigo, dentro do avião bateram em mim, fizeram um inferno na minha vida.

Nesse processo legislativo turbulento, o senhor faz alguma autocrítica?
Eu fiz tão pouco! Tem um ano que eu não discurso. Só coloco projeto em votação e tiro. Eu tentei chamar o outro lado, sentei com Jean Willys (PSOL-RJ) duas ou três vezes e pedi a ele para construir uma ponte. Nunca fui radical, sou de equilíbrio. Quantas vezes me atacaram de dedo no nariz e eu mantive a serenidade! Minha crítica é que não consegui trazer de volta os deputados que deixaram a comissão. O calor da Casa é o debate, sem hostilização.

Sente-se isolado aqui na Câmara? Qual é sua relação com seus colegas?
Gosto de todos e virei uma espécie de resistência. Imagine alguém pagando 20 pessoas para ir à comissão de Justiça gritar e pular contra um projeto? Depois da minha comissão, o mesmo grupo incentivou os índios a invadirem o plenário. Minha permanência foi um ganho para a democracia e para mostrar que regimento e diferenças têm que ser respeitados. Eu fui criminalizado pela minha opinião! Crime de opinião só existe na ditadura.

Então, não há por que ter vergonha?
Não! Vergonha do quê? Eu estou lutando pela minha família, pelo moral, pelos bons costumes, para que as pessoas não sejam chocadas na rua pelas atitudes de outros, não sejam agredidas visualmente e auditivamente.

Ajudou a consolidar sua posição o fato de sua mãe ter tido uma clínica de aborto?
Claro! Eu poderia não ter nascido. Represento 40 milhões de evangélicos. ‘Não’ ao aborto, ‘não’ à descriminalização das drogas! Os pastores que me criticaram são lideranças que recebem do governo, que têm pensamento de esquerda exacerbado.

Como é sua rotina religiosa?
Viajo toda quinta, sexta e sábado para um Estado diferente. É difícil separar o político do pastor. Antes eu falava para 15 mil pessoas, hoje para até 40 mil. Todo mundo quer ver o deputado. Quando faço show, recebo, mas os valores dependem muito.

O seu partido projeta expansão eleitoral em 2014 surfando na sua fama repentina. Quais são os seus planos?
Devo ir à reeleição, e meu partido tem o pastor Everaldo como candidato à presidência da República. Sou um homem conservador e meu partido é de centro. Tenho convicção religiosa, não sou preconceituoso. Fui eleito por um segmento e cumpri minha missão. Meu principal projeto é o ensino religioso obrigatório nas escolas, focando altos ensinamentos das religiões.

É verdade que aderiu ao procedimento estético da chapinha no cabelo?
(Risos). Até isso o pessoal erra. Não fiz chapinha. Já fiz relaxamento no cabelo. Sofri muito preconceito porque meu cabelo era crespo. É a aparência, a pessoa tem que estar bem consigo mesma. Fiz (relaxamento), gostei e minha família aprovou.


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